Estórias, não histórias

Bem-vindo ao Baú de Crônicas! Existimos, entre outras coisas, para contar estórias!

Mas talvez você seja um daqueles chatos (como eu, diga-se de passagem) e esteja incomodado com o “estórias”, torcendo o nariz enquanto pensa que “não existe estória; o correto é história”. Então, vou me explicar contando nossa primeira estória:

Um dia o destino(?) me mostrou um certo livro numa livraria de shopping (encontrei-o — ou ele me encontrou — sem querer) e, minutos depois, tentava conter as lágrimas enquanto lia o prefácio. Foi neste dia em que tive certeza: não posso mais contar “histórias”; tenho é que sempre contar “estórias”.

Melhor do que explicar é mostrar o que li. O autor é Rubem Alves; o livro, O velho que acordou menino. Fique agora com um trecho do prefácio e me diga se concorda ou não comigo quando digo que tenho de contar “estórias”.

Quando eu contava uma estória para minha filha pequena ela me perguntava: “Papai, essa estória aconteceu mesmo?”. Traduzindo em linguagem de adulto: essas memórias são memórias de coisas que aconteceram ou são invenções? Eu ficava quieto, sem saber o que dizer. A explicação seria: “Não aconteceu nunca para que aconteça sempre…”. O corpo se alimenta do que não existe. Temos saudade do que nunca aconteceu.

É muito fácil contar o passado usando as memórias sem vida própria. É só coletar os fatos e organizá-los numa ordem temporal e espacial. É assim que se escreve a “história”.

Tenho raiva dos gramáticos. Fernando Pessoa também tinha. Os gramáticos se sentem no direito de proibir palavras. Tiraram “estória” do dicionário. Agora só se pode dizer “história”. Mas o que tem “história” a ver com “estória”? “A estória não quer tornar-se história“, dizia Guimarães Rosa. A história acontece no tempo que não aconteceu e não acontece mais. A estória mora no tempo que não aconteceu para que aconteça sempre.

Riobaldo sabia que era difícil contar as memórias com vida própria. Dizia:

“Contar é muito dificultoso, não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos; uns com os outros acho que nem não se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data. Toda saudade é uma espécie de velhice…”

Mia Couto, escritor angolano, tem a mesma opinião:

“O que Dona Luarmina me solicita são exactas memórias. E isso é o que eu menos quero. Não é que me faltem lembranças. Estão é espalhadas em toda a minha substância. Meu corpo foi-se tornando um cemitério de tempo, parece um desses bosques sagrados onde enterramos nossos mortos.”

As cosias se complicam quando é um velho contando estórias da sua infância. A saudade mistura tudo. A saudade não conhece o tempo. Não sabe o que é antes nem depois. Tudo é presente. “A lembrança pura não tem data. Tem uma estação. Que sol ou que vento fazia nesse dia memorável? O devaneio não conta histórias…” (Bachelard).

Aí vem a confusão. O escritor duvida de suas lembranças e pergunta como a Adélia Prado: “Houve esta vida ou inventei?“. Se a Adélia dirigisse a mim a sua pergunta acerca das coisas que vou contar eu responderia. “Se essa vida não houve, agora, porque escrevi, está havendo…”.

E é por isso que, desde então, eu só conto estórias.

Dito isso, seja bem-vindo ao Baú de Crônicas (…e contos, e poesias, e quimeras) e aproveite ao máximo cada uma delas! =)